quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Cantando, assim.

Um menino, moleque. Uma menina, mulher.
Ele queria ser palhaço, artista, cantor de festival. Ela queria ser bailarina, queria ser mãe bem ou mal. Ela namorava o scarpin da vitrini, ele tomava uma Coca-Cola. Ele fazia versos, ela escrevia em prosa. Ele pixava o muro e ela brincava no jardim.

Estavam em direções opostas e se encontram no meio do caminho.

Ele pisca o olho, ela sorri.
Ele tenta olhar por baixo de sua saia. Ela finge que não vê. Ele gosta. Ela gosta.
Ele colhe uma rosa. Ela chuta as pedrinhas do chão do parque. Ele pula o muro em passos de balé. Ela lhe escreve um poema cheirando à Coca-Cola. Ele quebra a vitrini, ela já não quer o scarpin. Ele chora, ela o inscreve em um festival de manhã.

Debaixo da ponte, na cobertura, eles vão juntos.
Cantando, cantando...
Assim, assim...

domingo, 18 de julho de 2010

O estrangeiro.


A cidade era pequena. A Igreja era sua principal atração. Era lá que aconteciam as missas dominicais, casamentos, missas de sétimo dia, quermesses, aulas de religião, encontro de jovens. O público era sempre o mesmo, todos eram conhecidos pela região. Quando alguma coisa diferente acontecia, era lá que todo mundo ficava sabendo:
- Fulaninho separou?
- Traiu a mulher?
- Dizem que a outra está grávida!
- Ah, eu sempre soube que ele não prestava!

Um belo dia um sujeito novo apareceu: alto, branco, loiro dos olhos claros. Só podia ser estrangeiro! Mas de onde será que ele veio? Quase não havia gente nova por aquelas bandas!
Ninguém sabia...

O fato foi que o moço estava lá, andando sem rumo pela praça em frente à Igreja. Não era de todo novo, mas também não passava dos trinta e poucos anos. Sem hesitar, entrou pelos portões da Casa de Deus e lá se sentou, bem perto do altar. Olhou para a imagem de Jesus Cristo e abaixou a cabeça. Mãos entrelaçadas, ele nem sequer se mexia.
Todos olhavam admirados o rapaz:
- Mas que belo, um homem tão devotado à Igreja!
- Será que é solteiro? Não vi alianças!
- Um menino destes vale ouro, temos que chamar a nossa filha!
- Ainda mais estrangeiro, deve ter dinheiro!

Um frisson se instalou pela cidade, em meia hora todos já estavam sabendo da chegada do novo visitante.
O rapaz, por sua vez, continuava no mesmo estado: parado, cabeça baixa, mãos entrelaçadas.

- Ele já está aí há tanto tempo! Deve estar concentrado mesmo!
- Será que ele tem muito o que confessar para Deus?
- Não seja tola, confissão é com o padre!

Chegou um momento em que todos não se aguentavam mais de curiosidade. Resolveram mandar uma menina para conhecê-lo. Talvez atrapalhasse sua concentração, mas ele entenderia, certamente era um rapaz de boa família.
A feliz escolhida foi a filha do prefeito. Mocinha prendada que era, já estava na hora de casar.

Entrou com cautela e foi chegando perto do rapaz. Mas não é que o sujeito estava mesmo concentrado em sua reza?! Ele nem chegou a ouvir seus passos!
A menina continuou a andar calmamente até que chegou ao seu lado. Parou, sorriu, mas ele nem se mexeu.
De repente, um ronco. Estava dormindo.

sábado, 12 de junho de 2010

Me mande notícias.

Pois é, você me explicou outro dia essa história toda da viagem, mas eu ainda não consegui entender! Tem certeza que aqueles dinossauros são mansinhos? E as cobras? Você não tem medo das cobras? Ai, ai, quando você me diz que um gorila te cantou canções de ninar eu quase não acredito.
Mas acho válida a ideia do parque de diversões. Veja só, as crianças aqui em casa só falam disso! Dizem que aquele rato preto de calças vermelhas posa pra foto e dá tchauzinho! Vê se pode, no meu tempo os animais não se misturavam não: as crianças ficavam presas na gaiola enquanto eles as observavam do lado de fora. Ou ao contrário, não me lembro direito.
Mas de qualquer forma elas me parecem felizes. Tirando a Emília, claro, que agora deu para chorar até em comercial de margarina. Diz que é "TPM", uma coisa aí nova que inventaram para dar razão à manha.
Pedrinho continua o mesmo, um moleque danado! Cheio de travessuras, mas um amor de menino... As vezes ele chega na mãe de surpresa e coloca uma minhoca no cabelo dela, coitada! A mulher sai correndo, gritando pela casa inteira! Mas depois ele vem, a abraça e entrega uma rosa pra se desculpar. Ela fica toda dengosa, acha o filho lindo. No dia seguinte é tudo de novo. Mas é um bom menino, esse garoto.
Não sei se já te contaram sobre essa enchente que teve por aqui! Você precisava ver a lamarada que ficou a nossa sala. O carro, então, nem se fala! Mandamos para a oficina, mas não teve jeito. Perda total.
É verdade que sua neta está grávida? Ouvi falar que estão pra nascer uns dez filhotes, digo, filhos. Ou serão filhotes? A prenha deve ser a cachorra dela, acho que estou me confundindo...
De qualquer maneira mande lembranças à sua família! E vê se seu genro vende logo aquela moto, porque faz doze anos que ele não me paga aquela dívida que já está pra lá de cem mil réis.
Me mande notícias!
Passar bem.

Malas e mais malas.


Não gosto de fazer malas.
Também não gosto de desfazer malas.

Como, afinal, eu vou saber que roupa vou querer usar daqui a 9 dias?
Vai estar frio? Calor? Vai dar praia? Vou sair à noite? São tantas opções...

Então vamos fazer o seguinte: pensar em tudo o que pode acontecer nesses dias de férias e levar um conjunto de roupa para cada ocasião... ótimo, ótimo, está tudo escolhido. Agora vamos colocar tudo dobradinho dentro da mala um por um, que marav.. AHH NÃO CABE!!!

E agora ela está descosturando de tão cheia e eu não sei o que tirar!! O que eu faço?? Compro outra?!

Ahh, eu não sei fazer malas.

sexta-feira, 12 de março de 2010

(?)

- Papai, quantas estrelas existem no céu?
- Ah, meu filho... são infinitas! Nós não temos como descobrir!
- Temos sim, papai, é claro que temos! Você mesmo já me disse que pra tudo tem uma resposta...
- Mas eu disse aquilo em outra situação... Agora é diferente.
- Poxa papai, eu queria tanto descobrir!

E sai andando cabisbaixo. Um tempo depois volta para a sala, onde o pai está sentado no sofá lendo o jornal.

- Papai, você tem uma luneta?
- Acho que nós temos uma naquele armário dos fundos...
- Tá bom.

E lá foi o menino atrás da luneta. Chegando no ármario, viu aquele instrumento em baixo de um pano, um tanto empoeirado. Mas ele não ligou para a poeira, nem mesmo para as pequenas teias de aranha que também estavam lá. Apenas levantou o pano e falou:

- Fantástico!!!

Então, foi correndo para o jardim, carregando com uma certa dificuldade seu novo brinquedo. Após posicionar o equipamento de modo estratégico, voltou para a sala correndo e gritando para o seu pai:

- Pai, pai!! Vou contar as estrelas!!!
- Ah, meu filho! [risos] Se é isto mesmo o que você quer, vá em frente! 

E ele assim foi. Antes de aproximar o seu olho da lente, respirou fundo e observou mais uma vez a olho nu aquela imensidão de pontinhos brilhantes no céu escuro. Estava prestes a entrar em uma missão quase impossível! Seria ele capaz de realizar tal feito? Como seria a sua vida dali em diante? Ele seria feliz desta maneira? 
Nenhumas destas perguntas poderiam ser respondidas naquele instante, disso ele tinha certeza. Ainda olhando para aquele céu, viu uma estrela cadente! Seus olhos brilharam como nunca, um sorriso imenso tomou conta de seu rosto! E então, ele respirou fundo outra vez, agarrou a luneta, posicionou seu olho direito nela... e começou a contar:

- Um, dois, três, quatro, cinco, ...


A Flor

Na casa vazia ele entrou lentamente. Entrou, entrou e não viu nada. Depois foi embora. Foi embora e desapareceu.
Passou um tempo e ele voltou. Estava vazia de novo, mas desta vez ele resolveu arriscar: Foi bem fundo, em direção à algo totalmente incerto. Mas deu, deu certo.
Lá ele encontrou uma flor dourada e brilhante, lançando seus raios para todos os lados. Ele a pegou com carinho e cuidou como se fosse sua, como se fosse sua desde sempre e fosse ser pra sempre. Ele ficou ali com ela, parado em um canto e a fez sentir a flor mais feliz do mundo. Seus raios estavam renovados, radiantes e ainda mais brilhantes... Ela era, de fato, a flor mais feliz do mundo.
Mas com o fim da primavera toda flor tem que ir embora e, como de costume, ela foi. Ela foi e ele não. Por pouco suas pétalas não voltaram com o vento do verão para cair de novo em seus braços... Por pouco. Pois elas continuaram lá, firmes e fortes, rentes ao miolo.
Um dia, então, a primavera voltou... Ela sempre volta. Porém, quando a flor chegou ele já não estava mais lá. Ela o procurou, procurou por todos os lados... mas não teve jeito, não conseguiu tê-lo de volta.
Quem sabe na próxima primavera.
Quem sabe...