domingo, 18 de julho de 2010

O estrangeiro.


A cidade era pequena. A Igreja era sua principal atração. Era lá que aconteciam as missas dominicais, casamentos, missas de sétimo dia, quermesses, aulas de religião, encontro de jovens. O público era sempre o mesmo, todos eram conhecidos pela região. Quando alguma coisa diferente acontecia, era lá que todo mundo ficava sabendo:
- Fulaninho separou?
- Traiu a mulher?
- Dizem que a outra está grávida!
- Ah, eu sempre soube que ele não prestava!

Um belo dia um sujeito novo apareceu: alto, branco, loiro dos olhos claros. Só podia ser estrangeiro! Mas de onde será que ele veio? Quase não havia gente nova por aquelas bandas!
Ninguém sabia...

O fato foi que o moço estava lá, andando sem rumo pela praça em frente à Igreja. Não era de todo novo, mas também não passava dos trinta e poucos anos. Sem hesitar, entrou pelos portões da Casa de Deus e lá se sentou, bem perto do altar. Olhou para a imagem de Jesus Cristo e abaixou a cabeça. Mãos entrelaçadas, ele nem sequer se mexia.
Todos olhavam admirados o rapaz:
- Mas que belo, um homem tão devotado à Igreja!
- Será que é solteiro? Não vi alianças!
- Um menino destes vale ouro, temos que chamar a nossa filha!
- Ainda mais estrangeiro, deve ter dinheiro!

Um frisson se instalou pela cidade, em meia hora todos já estavam sabendo da chegada do novo visitante.
O rapaz, por sua vez, continuava no mesmo estado: parado, cabeça baixa, mãos entrelaçadas.

- Ele já está aí há tanto tempo! Deve estar concentrado mesmo!
- Será que ele tem muito o que confessar para Deus?
- Não seja tola, confissão é com o padre!

Chegou um momento em que todos não se aguentavam mais de curiosidade. Resolveram mandar uma menina para conhecê-lo. Talvez atrapalhasse sua concentração, mas ele entenderia, certamente era um rapaz de boa família.
A feliz escolhida foi a filha do prefeito. Mocinha prendada que era, já estava na hora de casar.

Entrou com cautela e foi chegando perto do rapaz. Mas não é que o sujeito estava mesmo concentrado em sua reza?! Ele nem chegou a ouvir seus passos!
A menina continuou a andar calmamente até que chegou ao seu lado. Parou, sorriu, mas ele nem se mexeu.
De repente, um ronco. Estava dormindo.